7 de março de 2025

Qual o valor de “sujar os sapatos” na era da Inteligência Artificial?

Qual o valor de “sujar os sapatos” na era da Inteligência Artificial?

Não é de hoje que discutimos isso aqui na agência, nos questionamos, buscamos mais conhecimento e outros pontos de vista, mas uma matéria da AFP que saiu no UOL sobre um protesto organizado por músicos ingleses contra um projeto que flexibiliza os direitos autorais para facilitar a utilização de conteúdos por empresas de inteligência artificial trouxe de volta o tema para as nossas conversas. E, desta vez, também para o nosso blog.

Sabe aquela história da “arte de sujar os sapatos”? É, praticamente, o mantra do jornalismo, ou pelo menos deveria ser (talvez agora mais do que nunca). Ir a campo, conversar com as pessoas, apurar os fatos, sentir o clima. É isso que faz um bom repórter. Mas aí vem a inteligência artificial, acessa uma quantidade absurda de matérias que custaram tempo e dinheiro para serem feitas, reescreve e republica de graça. E aí, como fica o valor do jornalismo?

Muitos de nós na GWA somos jornalistas. Todos nós trabalhamos com comunicação e sabemos o quanto um bom conteúdo é valioso. Por trás de uma boa matéria tem a experiência do jornalista, boas fontes, um texto bem escrito, revisão, um fotógrafo talentoso, um designer, um banco de imagens atualizado. Tudo isso tem um custo. E, mais do que isso, tem ainda mais valor!

O que a IA não faz

A IA é, sem dúvida nenhuma, uma mão na roda. Encurta caminhos, traz novas ideias, mas ela não apura um fato. Não tem contatos, não faz entrevistas, não recebe informações exclusivas, não investiga se são verdadeiras ou não. Ela não tem sapatos para sujar! Ainda sim, ela já cria conteúdo como notícias de rotina e resumos. E a linha entre o que é feito por humanos e por máquinas vai ficando cada vez mais tênue.

Lá no Reino Unido, veículos de imprensa se uniram ao movimento dos músicos lançando uma campanha chamada “Make it Fair”, ou Faça ser Justo, em tradução livre para o português, com essa frase na primeira página de quase todos os jornais e um editorial sobre o tema.

Segundo Ed Newton-Rex, o músico por trás do álbum silencioso de protesto, “a proposta do governo entregaria gratuitamente o trabalho de toda a vida dos artistas do país para empresas de inteligência artificial, permitindo que essas empresas explorassem o trabalho dos músicos para concorrer com eles”. Em certa medida, é exatamente isso que vem acontecendo no jornalismo (onde os direitos autorais já não funcionam tão bem quanto na indústria da música).

Ainda há esperança?

Essa é a grande dúvida. Recentemente, durante um evento do Olhar Digital, Pyr Marcondes disse acreditar que o direito autoral é uma discussão perdida. E sugeriu ainda que o blockchain poderia ser uma garantia de originalidade das ideias.

É curioso que tem se falado muito sobre o valor da autenticidade, da criatividade. Mas durante a pandemia também se falou muito sobre o “novo normal”, de um mundo mais empático, mais coletivo, e é difícil acreditar que essa mudança de fato aconteceu.

A criação original deveria ter muito valor. E o lado humano é insubstituível nesse quesito. Mas aí vem o paradoxo (e uma grande preocupação): uma IA bem treinada pode criar conteúdos “originais” a partir de dados existentes. É o que o Marcondes, inclusive, chama de “fusão das originalidades”.

O futuro da IA no jornalismo

A IA pode ser uma curadora de informações, auxiliando na seleção e verificação de conteúdo, pode trazer novos pontos de vista, sugerir títulos e afins. E o SEO, ao contrário do que muitos pensam, vai ficar ainda mais importante.

E você, o que acha de tudo isso? Como podemos valorizar o jornalismo de qualidade na era da IA?

Referência: https://www.uol.com.br/splash/noticias/afp/2025/02/25/mais-de-mil-artistas-britanicos-se-mobilizam-para-defender-os-direitos-autorais-frente-a-ia.htm

 

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