10 de fevereiro de 2026

Entre youtubers, IA e eleições: o jornalismo em 2026

Agora em janeiro, o Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, que se dedica explorar o futuro do jornalismo em todo o mundo por meio de debate, engajamento e pesquisa, divulgou um estudo sobre as tendências e perspectivas para 2026 na área. Nossa área.

O documento é muito interessante e vale ser lido na íntegra, com calma.

Mas apesar da angustia que dá ler que “o engajamento e a confiança na mídia tradicional estão caindo, o que tem levado políticos, empresários e celebridades a concluírem que podem ignorar a mídia completamente, concedendo entrevistas para podcasters ou YouTubers que lhes sejam favoráveis”, ainda dá para se manter otimista.

Sobre esse ponto, especificamente, é importante lembrar que, aqui no Brasil, estamos em ano de eleições. E essa atitude de pular o intermediário, de tirar a mídia do jogo, pode gerar altos custos para o ambiente democrático. A imprensa tradicional, pelo menos a princípio, tem como dever fazer as perguntas que a sociedade quer ou precisa saber e não apenas àquelas que o entrevistado quer responder.

Ou seja, quando o entrevistador é um simpatizante, ele raramente vai confrontar uma polêmica, levantar uma contradição, questionar um dado falso ou mesmo pedir explicações mais detalhadas sobre como algo será feito. Sem esses questionamentos, a prestação de contas fica comprometida e atrapalha decisões mais conscientes, mais embasadas, por parte dos cidadãos comuns.

Outro ponto delicado é que a democracia depende do debate entre diferentes. Se os líderes param de falar para o “grande público” por meio da mídia tradicional e focam apenas nos seus nichos, nos seus seguidores, cada público, digamos assim, recebe apenas uma versão da realidade, enxerga apenas um ponto de vista. E fica mais difícil chegar a consensos.

É inquestionável que o Youtube, e as redes sociais como um todo, são importantíssimas para tornar o conhecimento mais acessível e dar voz a muita gente que por muito tempo – e ainda hoje – não tem tanto espaço para falar. São sim, entre várias outras coisas boas e também ruins, ferramentas de empoderamento e inclusão. Mas é preciso ficar atento. Mais do que isso, talvez, se manter crítico.

A mídia tradicional, com todos os seus defeitos, possui processos editoriais, departamentos jurídicos e códigos de ética. Uma imprensa enfraquecida tem menos recursos – financeiros e humanos – para realizar investigações, fiscalizar os mais poderosos e fazer denúncias.

Voltando ao relatório do Instituto Reuters, o desafio da mídia em 2026 é justamente lutar contra esse “cerco” e provar que a análise contextual e a história humana ainda têm mais valor do que o marketing de influência.

E, para isso – e aqui a parte otimista – os editores afirmam que será importante focar em mais investigações originais e reportagens de campo, análise contextual e explicação de histórias humanas. Em contrapartida, planejam reduzir o jornalismo de serviço, conteúdo mais atemporal e notícias gerais, que muitos esperam que se tornem comoditizadas por chatbots de IA. Ao mesmo tempo, acreditam ser importante investir em mais vídeo e mais formatos de áudio, como podcasts, e um pouco menos em produção de texto.

Para fechar, uma curiosidade. Ano passado, o Instituto previu a popularidade de frases como AI Slop, que é o conteúdo tosco de IA; IA Agêntica, que imita a tomada de decisões humana; e Brain Rot, que é uma espécie de apodrecimento cerebral causado pelo consumo excessivo de conteúdos superficiais, repetitivos ou sem desafio intelectual. Para este ano, eles citam o termo conteúdo líquido, que se refere a um conteúdo digital altamente adaptável, compartilhável e capaz de fluir por diferentes plataformas, dispositivos e públicos; proveniência digital, que é a capacidade de verificar a origem e a história de uma mídia digital; AEO (Answer Engine Optimisation), que é uma espécie de evolução do SEO para buscas conversacionais e assistentes de voz; e vibe coding, que basicamente é criar código apenas descrevendo o que precisa para um programa de inteligência artificial.

2026 será importante.

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